A história de Jurerê começa muito antes do turismo e dos beach clubs. A região foi habitada por povos carijós, virou terra comunal, mudou de mão algumas vezes e só ganhou o nome atual no século XX. A linha do tempo abaixo explica como cada etapa levou ao bairro planejado que existe hoje.
O nome que veio dos carijós
Falar de Jurerê é começar muito antes do bairro que hoje aparece nos mapas de Florianópolis. A ocupação humana na ilha de Santa Catarina é antiga e deixa marcas que atravessam milênios. Há vestígios do chamado Homem de Sambaqui desde cerca de 4800 a.C., e, quando os primeiros europeus chegaram no século XVI, povos carijós já viviam na região, com agricultura, pesca e coleta de moluscos como parte da vida cotidiana. Esse pano de fundo ajuda a entender por que o nome de Jurerê não nasceu com os loteamentos nem com os hotéis. Ele veio de um modo mais antigo de ocupar a paisagem, ligado à relação entre mar, terra e passagem de água.
Jurerê deriva de Y-Jurerê-Mirim, expressão usada pelos carijós para o canal do estreito e também para a porção da ilha ligada a ele. O sentido é direto e bonito na sua simplicidade: “boca d’água pequena”. O nome guarda a memória de uma geografia observada de perto, em que o estreito, os canais e as bordas da ilha importavam para o deslocamento, a pesca e a vida. Muito antes de virar endereço valorizado, o lugar já carregava uma identidade própria, associada a essa passagem de água que separa e ao mesmo tempo conecta.
Como as terras mudaram de mão
Até o século XX, a região permaneceu preservada e era chamada de forma genérica de Praia do Forte. Esse nome ainda aparece na memória da área, embora hoje pertença à praia vizinha. O cenário era outro. Antes da urbanização, havia usos mais difusos, terras comunais e presença de poucos moradores. A mudança de posse começou a ganhar forma na década de 1920, quando o construtor naval Antônio Amaro teve o estaleiro retirado do Centro por causa das obras da Ponte Hercílio Luz. Como ressarcimento, recebeu as terras da Praia do Forte ao Pontal, então usadas coletivamente pelos moradores da região.
Antônio Amaro demarcou essas terras, e elas passaram a ser conhecidas como Campo de Antônio Amaro. Foi um passo decisivo para alterar o modo como o espaço seria visto e apropriado dali em diante. Depois de sua morte, em 1935, Aderbal Ramos da Silva comprou as terras da viúva e reduziu a presença dos moradores que ainda utilizavam a área. Essa sequência mostra como Jurerê começou a deixar de ser apenas uma faixa de uso comum e passou a integrar um processo de concentração fundiária e reorganização do território.
Em 1956 surge a Imobiliária Jurerê, vinculada a Aderbal, e é desse movimento que o bairro passa a receber o nome pelo qual se tornaria conhecido. O nome da empresa acabou se misturando ao do lugar. Isso é importante para entender Jurerê sem simplificações. O bairro não surgiu pronto. Ele foi sendo recortado por decisões sucessivas, primeiro com terras demarcadas, depois com a venda, e então com o mercado imobiliário assumindo papel central na ocupação.
A estrada que abriu o Norte
A década de 1970 marca uma virada para o norte da ilha. Com a pavimentação da SC-401, as praias da região passaram a ser mais procuradas. A estrada não criou Jurerê, mas mudou o ritmo do acesso e o interesse pela área. Onde antes predominavam trechos mais preservados e usos tradicionais, começou a crescer a atenção de quem procurava novas frentes de ocupação e lazer no litoral.
Nesse período, a paisagem local ainda misturava tempos diferentes. Havia as comunidades na Praia do Forte, barracões de pesca e o Clube 12 de Agosto, já instalado no local. Também existiam os loteamentos da Imobiliária Jurerê, um deles desenhado por Oscar Niemeyer. Em outras partes da área, os eucaliptos plantados atraíam famílias pela sombra. O conjunto revela um Norte da Ilha em transição, no qual conviviam pesca, sociabilidade local, projetos urbanísticos e uma vegetação que ainda marcava o ambiente de forma forte.
Esse é um ponto central da história de Jurerê. A ocupação não aconteceu sobre um vazio, nem de uma vez só. Houve camadas. Houve a presença de moradores, de atividades ligadas ao mar, de loteamentos planejados e de referências urbanas que se sobrepunham ao cotidiano antigo. A estrada apenas tornou tudo isso mais visível e mais disputado. O bairro passa, então, a ser pensado não só como área de moradia, mas como uma nova frente de valorização no litoral norte de Florianópolis.
O lançamento de 1980
Em meados de 1978, a Habitasul Empreendimentos Imobiliários começa a negociar a criação de um grande loteamento em Jurerê. Com o apoio de Aderbal, que vende as terras restantes, e depois de resolver conflitos herdados com a comunidade local, a empresa lança Jurerê Internacional. O nome “internacional” teve um papel duplo: diferenciar o novo empreendimento do bairro já existente e conferir status ao local. Ao mesmo tempo, o projeto incorporou loteamentos antigos, inclusive o desenhado por Niemeyer.
Jurerê Internacional foi inaugurado em 6 de novembro de 1980 como um empreendimento imobiliário, residencial e de resort desenvolvido pelo Grupo Habitasul. O masterplan original foi do arquiteto Sérgio Sclovsky, que já antecipava modelos urbanos com planejamento integrado. Isso significa que o bairro nasceu com uma lógica pensada desde o começo, não como soma improvisada de construções. Ruas, edificações, segurança, comércio e serviços foram previstos dentro de uma organização própria. Havia plano diretor específico e metas de preservação, com uma densidade demográfica projetada para ficar 50% a 70% abaixo da autorizada pelo plano diretor de Florianópolis.
Também por isso o nome Jurerê Internacional passou a representar uma ideia de bairro planejado antes mesmo de ser apenas uma área residencial. O Grupo Habitasul, fundado em 1967 e sediado em Porto Alegre, atuava em setores industrial, imobiliário, de turismo e hotelaria. A presença de uma empresa com esse perfil ajudou a definir a escala do projeto e a maneira como ele se conectou ao mercado, à hospedagem e ao uso de lazer. Em 1980, o Jurerê Praia Hotel, construído pela Habitasul, passou a marcar o limite entre a parte nova e a área antiga.
Do hotel que virou fronteira ao nome Tradicional
Com o tempo, o Jurerê Praia Hotel virou um ponto de referência para separar dois modos de ocupação do mesmo território. De um lado, a área planejada, associada ao Jurerê Internacional. De outro, a parte mais antiga, que passou a ser chamada de Jurerê Tradicional. Essa distinção é prática e também histórica. Ela ajuda a ler o bairro como um lugar em que o antigo e o novo convivem, mesmo quando seguem lógicas diferentes de uso e de paisagem.
Os registros da prefeitura tratam ambos como um bairro só. Ainda assim, no cotidiano, a expressão Jurerê Tradicional ganhou força para nomear a área onde permanecem comunidade local, pescadores, comércio e serviços. É também dali que se acessa Canasvieiras via Canajurê. O trecho conserva outra relação com o mar, menos associada ao circuito hoteleiro e mais ligada à vida de quem trabalha e circula ali há mais tempo. Há, inclusive, uma das boas raias para esportes à vela da ilha, o que mostra que a área continua valorizada por usos ligados ao vento e à água, não apenas ao passeio.
Essa convivência entre um setor planejado e uma área tradicional ajuda a entender por que Jurerê é tão particular dentro de Florianópolis. O bairro não se explica só pelos empreendimentos de alto padrão, nem apenas pela memória da pesca. Sua identidade é feita da tensão e do encaixe entre esses dois mundos. Em vez de apagar o passado, o nome Tradicional passou a funcionar como lembrete de que a ocupação anterior continuou existindo, ainda que em outro ritmo.
O bairro planejado que virou referência
Jurerê Internacional cresceu como referência de bairro planejado. Mansões, hotéis de luxo, beach clubs e o Jurerê Open compõem hoje a paisagem mais associada ao lugar. O shopping a céu aberto, em funcionamento desde 1994, reforçou a vocação de comércio e circulação a pé em uma área que já nasceu com preocupação urbanística. Na alta temporada, a programação se intensifica e o bairro recebe muitos turistas brasileiros e estrangeiros, inclusive argentinos.
A imagem de planejamento, porém, não veio apenas da estética ou da ocupação imobiliária. Em 2009, a praia recebeu a primeira Bandeira Azul da América Latina, selo que precisa ser renovado a cada temporada. Esse reconhecimento se conecta à ideia de gestão contínua da faixa de areia e do uso do espaço costeiro. Jurerê foi construído para combinar moradia, lazer e controle urbano, e esse modelo acabou se tornando parte de sua identidade pública.
Em 2022, o grupo lançou a marca Jurerê in_ com o projeto Jurerê 2050. Trata-se do quarto masterplan desde 1980. A proposta inclui um Parque Central com mais de 150 mil metros quadrados de lazer, ampliação do Jurerê Open com mais de 4 mil metros quadrados, mais de 10 quilômetros de ciclovias, novas centralidades e área de preservação. Da área total de 310 hectares, mais de 89% seria preservado, e a nova etapa estava prevista até 2035. O horizonte apresentado mostra que o bairro segue em transformação, mas sempre dentro de uma lógica de desenho urbano e controle de ocupação.
Jurerê hoje
Hoje, Jurerê é uma referência que funciona em duas escalas. Na escala da imagem, é um endereço de alto padrão, muito associado a hotéis, eventos, lazer e movimento na temporada. Na escala do cotidiano, continua sendo um bairro com camadas históricas muito visíveis. A área antiga mantém pescadores, serviços e relações de vizinhança. A parte planejada segue com forte presença de visitantes e uma ocupação que conversa com a ideia de resort urbano. Jurerê, assim, não é apenas uma praia famosa. É um território em que o planejamento imobiliário, a preservação e a memória local continuam negociando espaço.
A recente obra de alargamento da faixa de areia, concluída em março de 2024, reforça essa dinâmica de transformação contínua. Com cerca de 40 metros entre vegetação e mar, o cenário da praia passou a ter outra leitura espacial. A intervenção altera a experiência de quem chega e de quem vive no entorno, mas não apaga o desenho histórico do lugar. Jurerê segue sendo um bairro onde o nome antigo sobrevive ao empreendimento moderno, e onde a paisagem ainda ajuda a contar como Florianópolis foi ocupando seu Norte.
Para quem quer entender Jurerê além da imagem mais conhecida, a chave está justamente nessa convivência entre tempos. O nome veio dos carijós, a terra passou por demarcações e vendas, a estrada abriu o acesso, o planejamento definiu a ocupação e o bairro cresceu entre o tradicional e o internacional. É essa soma de camadas que faz de Jurerê um dos lugares mais interessantes para ler a história recente da ilha, sem perder de vista o passado mais antigo que ainda ressoa no próprio nome.