A formação do Saco dos Limões acompanha a própria ocupação costeira do Centro de Florianópolis, com agricultura, pesca e caminhos antigos estruturando o território.
Origem antiga na borda da Baía Sul
A ocupação do Saco dos Limões remonta ao final do século XVIII, quando a área já chamava atenção por sua fertilidade e pela possibilidade de uso agrícola. Em um contexto de colonização da Ilha de Santa Catarina, a região reuniu roças, pomares e pequenas atividades de subsistência, integradas ao cotidiano das comunidades costeiras. O nome do bairro consolidou-se a partir da presença de limoeiros e outras plantações que marcavam a paisagem local.
Essa origem explica por que o bairro sempre esteve ligado à terra e à água ao mesmo tempo. A planície costeira, voltada para a Baía Sul e cercada por morros, oferecia abrigo, passagem e produção. Ao longo do tempo, o Saco dos Limões deixou de ser apenas uma área rural de abastecimento e passou a integrar de forma mais intensa a expansão urbana de Florianópolis, sem perder completamente a memória da sua paisagem original.
Frutas, abastecimento e interesse dos viajantes
Os relatos de viajantes que passaram pela Baía Sul registraram a qualidade das frutas da região, especialmente as laranjas e os limões. As referências elogiosas indicam que o lugar era percebido como área produtiva e privilegiada, com frutas apreciadas por quem chegava por pequenas embarcações de exploração ou por trilhas que ligavam a costa ao interior da Ilha. O Saco dos Limões, assim, entrou na história da cidade também como território de abastecimento.
O limão tinha ainda um uso muito prático para as embarcações: servia para preparar refresco e xarope contra o escorbuto, o que aumentava a procura por frutas frescas na região. Essa relação entre a produção local e a circulação marítima reforçou a importância do bairro na economia cotidiana. Não era apenas um espaço de cultivo; era um ponto onde a cidade se conectava ao mar por meio da alimentação, do comércio de subsistência e da navegação.
Economia de cal, pesca e pequenas roças
No início do século XX, Virgílio Várzea descreveu a região com forte presença de atividades extrativistas e pouca agricultura de subsistência. Entre os trabalhos mais relevantes estavam a produção de cal nas caieiras, a pesca e cultivos como mandioca, café e cana-de-açúcar voltados ao consumo local. Esse conjunto de práticas mostra um bairro em que o cotidiano dependia da combinação entre recursos naturais, trabalho manual e uso direto do território.
A produção de cal teve um papel expressivo, ainda que associado à destruição de sambaquis em certos pontos da paisagem. Ao mesmo tempo, a pesca seguia como atividade importante na beira da enseada, complementando a renda e garantindo alimento. O Saco dos Limões permaneceu, por muito tempo, como um espaço de economia modesta, mas fundamental para a vida do entorno, com ocupação dispersa e forte relação com o ambiente costeiro.
Caminhos para o sul da Ilha
Além da pesca e das roças, o bairro teve grande relevância como área de passagem. Diversos caminhos em direção ao sul da Ilha de Santa Catarina atravessavam terras do Saco dos Limões, criando uma rede de circulação que conectava o Centro a outros núcleos do litoral e do interior. Essa função estratégica ajudou a consolidar o bairro como ponto de ligação, e não apenas como área de moradia ou produção.
Entre as rotas mencionadas historicamente estavam estradas que seguiam para a Trindade, para o Pantanal e para os morros do Córrego Grande, além de caminhos costeiros em direção a Prejibaé, rio Tavares e Ribeirão. O bairro, portanto, fazia parte de uma malha territorial mais ampla, em que a mobilidade entre arraiais, freguesias e áreas rurais era essencial. Sua geografia o transformou em corredor natural entre diferentes partes da cidade.
A formação da vida comunitária
No início do século XX, a dimensão religiosa passou a organizar com mais força a vida social local. Em 1902, foi concedida a ordem para a instalação de uma capela sob a invocação de Nossa Senhora da Boa Viagem, que acabou benzida e inaugurada em 1904. A presença da capela reforçou a centralidade comunitária do bairro, servindo como ponto de encontro, devoção e referência territorial para moradores e famílias antigas.
Mais tarde, a comunidade avançou para a estruturação de uma igreja matriz. A autorização para a construção veio em 1960 e a primeira missa da paróquia foi celebrada em 1962. Esse processo mostra um bairro que consolidou sua identidade em torno da religião, da vizinhança e da permanência das famílias. A igreja passou a representar a continuidade de uma história local longa, enraizada no território e nas relações entre os moradores.
Urbanização, aterros e mudança da orla
A segunda metade do século XX trouxe mudanças profundas para o Saco dos Limões. A construção da Avenida Prefeito Waldemar Vieira já havia alterado parte da faixa costeira, e depois a Via Expressa Sul intensificou essa transformação. A partir de 1996, a via modificou o perfil do bairro, ampliando a planície costeira e afastando as construções do mar. O resultado foi uma paisagem muito diferente da antiga orla pesqueira.
Os tradicionais ranchos de pescadores foram demolidos para dar lugar a aterros hidráulicos e mecânicos, e a antiga praia perdeu parte de sua função original. No lugar da beira d’água com canoas, redes e coleta de berbigão, surgiu uma nova conformação urbana, mais ligada à circulação viária do que ao uso pesqueiro. O Saco dos Limões, hoje, é um bairro em que a memória costeira convive com a infraestrutura urbana que redesenhou completamente sua frente marítima.